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domingo, 6 de outubro de 2013

Invisível


  • Ele estava sob o ardente sol de setembro, era primavera e as flores vivas o traziam um completo sentimento de nostalgia. Em suas mãos havia uma foto, envelhecida e um pouco rasgada, parecia ter sido usada recentemente. Algo caiu sofre a fotografia, algo molhado, uma lágrima , uma lagrima pesada, carregada de sentimentos, remorsos e arrependimentos, havia dor em cada gota que ali pingava, havia tristeza, solidão. Ele esfregou os olhos com força, enxugando e espalhando as lagrimas. Recostou-se no banco, se encolhendo e agarrando os joelhos, ele queria gritar, mas já não tinha mais voz, queria correr, mas não tinha forças, queria respirar, mas seu pulmão estava comprimido. O ardor era quase insuportável. O sol brilhava, indiferente a ele, alheio a seus sentimentos, brilhava tão forte como ele nunca havia visto antes, ele tinha raiva do sol! Como ele ousava brilhar quando tudo em seu mundo havia desmoronado ? Levou a fotografia até seus lábios, e a pressionou ali por alguns segundos, depois afastou, e o polegar direito passara a acariciar um rosto róseo, vivido, da moça monita de cabelos escuros, ondulados, olhos profundos e escuros, um sorriso encantador. Ela parecia tão feliz naquela foto, era compreensível a dor, ela era linda. Mas ele demorou tanto pra perceber aquilo. Se lembrava agora dos tempos de colégio, ela era bonita, popular, tinha tantos garotos atrás dela... Ele era o isolado da primeira fila. " Por que ela iria olhar pra mim? " Ele pensava. E ela olhava, todas as manhãs ela olhava para ele e sorria, tão ternamente que poderia sentir o amor escapar de seus olhos brilhantes e profundos. As lembranças em sua mente voavam, eles estavam agora numa praça, a mesma que ele estava, os bancos de madeira, tarde de primavera, um sol ardente, flores vividas, ela com sua turma, ele sozinho. Ele não acreditava que ela estava se aproximando, por que ela fazia aquilo? Ela queria acabar com ele? Ele não acreditava que houvesse sentimentos dela por ele, não acreditava nela, nos sentimentos dela, ele respondia com indiferença. Ela disse " Oi", mas ele não respondeu, estava distraído demais com seu livro, ela insistiu e sentou-se ao lado dele, ela sorria como na foto, tão linda. Ela pediu por atenção, mas ele não parou de ler, ela continuou ali. Os dias passaram, e ela sempre estava ali com o mesmo sorriso, mas ele ainda não podia acreditar nos sentimentos dela. Os dias tornaram a passar, e o sorriso alegre estampado em seu rosto, começara a morrer, murchar, ficar sem vida. Ela ainda estava ali, mas não tinha mais o sorriso, agora o que destacava seu rosto eram lagrimas, ela continuava linda. Ele fechou os olhos e meneou a cabeça negativamente, a lembrança dela assim fazia a dor aumentar. Agora de olhos fechados ele se lembrou dela sobre sua cama, ela estava sorrindo, como na foto, estava feliz novamente, ele também estava, ele se aproximou dela e a beijou, um beijo tão apaixonado. Eles se amavam. Mas eram de mundos totalmente diferentes, ele a amava, mas ainda não acreditava nela, não acreditava como alguém como ela poderia ama-lo, então ele chorava em segredo, eles brigavam e ele berrava que não a queria, ela não era para ele, e ele estava certo disso, e decidido. Ela estava tão vulnerável, ele se lembrava dela gritando, as lagrimas pesadas corriam lhe a face, ela o queria tanto, ela faria qualquer coisa por ele, ela morreria por ele, ela mudaria, ela seria o que ele quisesse, ela o amava mais que sua própria vida. Ele queria alguém diferente, uma garota comum, que não fosse tão popular, alguém que desse a ele a estabilidade que ele tanto ansiava. Ela não parecia disposta a desistir, ele se lembrava de ouvi-la dizer " Eu não vou desistir de você" ele gostava de ouvir aquilo. Todas as vezes ele a destruia de alguma forma, ultimamente ela andava palida, sem sorriso, sem brilho nos olhos, apenas dor, lagrimas, ela estava perdendo as forças para lutar. Ele não podia perdê-la, era daquele modo errado que eles se amavam incondicionalmente, ele não queria que ela desistisse, ela não era pra ele, mas ele a queria ainda assim, ele a procurava, e eles se amavam e ela sorria novamente. Ela era tão perfeita, como não ama-la? Os dias passavam, e eles se amavam daquela forma dolorosa e profunda. Ele abriu os olhos e outras grossas lagrimas lhe escorreram a face, ele meneava a cabeça negativamente, era tão injusto. Mais uma vez ele se deixou fechar os olhos e divagou para a ultima lembrança que tinha dela, ela chegou sorrindo naquela mesma praça, cenário de um amor tão real, ela tentou beija-lo, ele negou. Ele lhe falava de sua atitude infantil, imatura. Ele não aguentava mais sofrer, eles brigavam tanto, ele sofria ao fazê-la sofrer, mas era incapaz de impedir, eles pertenciam a mundos diferentes. Ela estava disposta a tudo por ele, mas ele temia, ele a amava, mas tinha medo, medo de perder as outras pessoas que amava, medo da diferença entre eles acabar não resultando bem no final, medo de abrir mão de algumas coisas, ele queria que ela lutasse por ele, mas naquele momento, ele não queria lutar por ela. Os olhos dela transbordaram e ela correu, ela correu tanto, ele a via se distanciar e não fazia nada, julgava ser o melhor, ela corria por uma estrada incerta, perigosa, ela corria e se afastava tanto e ela continuava correndo, ela lhe sumiu a vista. Ele esperou que ela fosse ligar no dia seguinte, como sempre fizera, que ela fosse ir até la, que fosse procurar por ele. Isso não aconteceu, alguns dias se passaram e ela não deu noticias. Ele sentia tanto, queria saber dela, queria procura-la e ama-la novamente, pensava se ela havia superado e se torturava com a ideia, era egoista o suficiente para aquilo. Ele abriu os olhos novamente e agora ele conseguia gritar, e ele gritava com força, ele usava de todo ar de seus pulmões comprimidos pra gritar com força, sua voz escassa doía a quem ouvisse, ele gritou e gritou e chorou. Gritou pelo nome dela, desferindo socos pelo banco que estava. Ah se ele soubesse, se ele soubesse que isso iria acontecer, ele teria feito diferente, ele enfrentaria tudo e todos, ele faria como ela, abriria mão de qualquer coisa pelo amor que sentia, se ele ao menos pudesse imaginar que isso iria acontecer. Ele queria tanto que o tempo voltasse, ele queria a chance de poder olhar nos olhos dela por uma ultima vez e dizer o quanto a amava, dizer que o amor deles era forte o suficiente pra superar qualquer coisa. Agora com tanta dor, ele encarava a estrada que levara sua amada e vinha a imagem da reportagem, a folha cinza de jornal estampando um trilho de trem, ele ainda se lembrava o que dizia a reportagem "... o corpo da jovem foi retirado totalmente irreconhecível, com certa dificuldade os especialistas conseguiram decifrar um bilhete que ela trazia em mãos, não se sabe o porque, estava apenas escrito: " Eu já não tenho mais forças pra lutar, não posso continuar assim. " Algo totalmente vago... "

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