E lá estava eu. Caminhando rumo à lugar nenhum, ouvindo minhas músicas preferidas e revivendo pequenos e infames momentos que eu havia protagonizado.
Lembro-me vagamente que, naquele momento, eu sentia meu mundo desmoronando lentamente. Eu tentava segurá-lo, contudo, mesmo com toda a força que eu depositava para que ele se reergue-se sem sequelas, era inevitável mantê-lo intacto. Algumas pessoas transitavam em minha vida e eram seguidas por sentimentos, verdades e fatos. Cada um seguia uma direção aleatória, misturavam-se, confundiam-me, desordenavam-me e atordoavam-me.
Eu continuava caminhando. À passos lentos, tortos e incertos, devo confessar. Contudo jamais cogitei parar.
Avistei um banco vazio, cuja sombra projetada gerava uma figura humana. Aproximei-me. Era possível que eu estivesse enlouquecendo?
Uma doce voz sussurrou ao meu ouvido “Então você teve coragem de se aproximar?” Olhei para os lados, não vi ninguém. Quando olhei para o velho banco novamente, meus olhos fixaram-se na figura de uma menina. Ela carregava consigo um bloco de anotações. Vestia um leve vestido branco, usava um colar dourado e tinha um ar de mistério. Questionei-a:
- Não deveria?
- Poucos fazem isso.
- Mas, quem é você afinal?
- Seu reflexo.
- Ora, deixe de besteiras. Não é possível que eu encontre-me com palavras abstratas. Seria como falar com o amor. Fale a verdade.
- Olhe para os lados. Vê algo? - Ela ignorou minha fala e prosseguiu como se tentasse me provar algo.
- Não, não vejo nada. - Admiti. A paisagem seguia os mesmos padrões clichês de sempre. Nuvens negras encobriam o céu, o vento era forte e cheirava chuva. O banco era a única coisa concreta, ou talvez nem ele fosse real, que restava no alcance que meus olhos permitiam-me enxergar.
- Pois bem, isso é o que você tem sido.
- Esquece isso. Você bem deveria saber a confusão com a qual tenho deparado-me diariamente. - Eu esperava que ela tivesse sentido a ironia da minha voz e percebesse que eu ainda não havia acreditado em sua identidade.
- E o que você tem visto de toda a sua confusão?
De alguma forma, ela sabia o que estava acontecendo e suas palavras começaram a solidificar-se. Eu não via absolutamente nada em mim, era bagunça, vazio e incertezas.
- Escuta, tem como você me explicar alguma coisa? - Eu disse, seguido a um suspiro.
- Venha comigo, vou te mostrar.
Começamos a caminhar e nos distanciamos do banco. Não havia nada. Chão, chão e mais chão. Indignei-me: isso era meu interior?
Ao longe, avistei duas crianças brincando com bexigas coloridas. Elas corriam, riam e pareciam não se preocupar. A tal menina do vestido braco acenou a cabeça pra mim, como quem dava um sinal permitindo que eu me aproximasse. Neguei, recuei e insisti:
- Podemos continuar caminhando?
- Está com medo de se aproximar delas?
- Não.
- É difícil aproximar-se de algo que você julga ser seu passado, não é mesmo?
- Deixa de maluquice. São só duas crianças.
- Você era como elas.
- Era.
- Devia sentir saudades disso.
- Saudades não basta.
- Talvez você esteja certa.
- Claro que estou. - Afirmei convicta.
- Queria apenas que você se lembrasse que, algumas coisas, não podem ser tiradas do nosso passado.
- Não quero esquecer isso.
- Não é pra esquecer, nem reviver. É pra guardar o que foi aprendido. Gestos, histórias e promessas não são esquecidos, tampouco voltam. Mas mostram-nos coisas das quais deveríamos não nos esquecer.
Calei-me e continuamos andando. Talvez aquela estranha tivesse razão. De cada pouco que havia sido eu deveria manter um degrau. Não para retroceder, mas para elevar-me.
Alguém cutucou-me pelas costas. Virei-me e nada. Cutucou-me novamente. Não havia ninguém. A menina do vestido branco não declarou nada, sobretudo, notou minha inquietação.
Tropecei em algo que parecia ser uma pedra. Ao olhar para o chão, li que nela estava escrito: “Caminho para a sua felicidade”. Abaixei-a para pegar, sem sucesso. Um vulto roubou-a mais rápido.
Suspirei e desabafei:
- E então? O que veio a ser isso? Algo para mostrar-me que eu devo ser mais rápida?
- Não.
- O que, então?
- Explique-me o que aconteceu e conclua por si só.
- Eu tropecei no caminho para a minha felicidade.
- Sabe por que, não é?
Quieta, notei que, minha felicidade veio até mim. Como deve ser e como costuma ser. O vulto não fora mais rápido que eu, nem roubou algo de mim. Ele apenas levou-a para outra pessoa. E levou-a porque eu estava preocupada demais. Não apenas preocupada. Preocupada com coisas irrelevantes, que merecem ser ignoradas. Preocupada com o tipo de coisa que costuma roubar meu tempo e manter minha mente inalienada, sem levar-me a lugar nenhum.
Mais adiante, um pequeno grupo conversava. Perante a eles, pairava a nuvem mais negra do céu. Perguntei ao meu reflexo quem eram e ela respondeu: “A Inveja, o Medo e o Rancor”.
Irracionalmente, entrei entre eles e, com a voz trêmula, sussurrei:
- O que têm tramado pra mim?
- Não tramamos nada pra você. Fazemos isso com todos.
- Por que me afetam mais?
- Porque você nos permite entrar.
- Não permito.
- Ah, não? Tem deixado de fazer coisas, deixado pessoas pra trás, comparado-se injustamente, cedendo a derrota antes da hora. Torna-se frágil sozinha e apenas aproveitamos a brecha. Obviamente, você é maior que nós. Somos apenas abstratos, lembra-se? Contudo, quando você nos permite, fazemos.
O recado foi claro e direto. Mas eu sabia que precisava da ajuda de alguém para ir contra eles e já sabia o que me aguardava.
Uma carta caiu dos céus, trazida por uma pomba. Dizia ter sido escrita pela minha Força. Ao contrário do esperado, a mensagem foi curta: “Esqueces de mim quase sempre. Mas lembre-se que, quando você ergue a cabeça e sorri, tens a prova que não te deixo.”
Sentei-me no chão. Estava exausta. Meu reflexo sentou-se comigo. Na minha frente havia tanta gente, tanta coisa. Todos em preto e branco. O mais distante possível, as duas únicas pessoas com um tom de colorido conversavam. Antes de eu falar, a voz doce tornou a falar:
- Felicidade e o Amor. Quase sempre caminham juntos e torna-se no mínimo estranho quando se separam. Eles não estão distantes. Só estão além de tudo isso que você vê em preto e branco.
- E o que são essas coisas em preto e branco?
- O Tempo, a Verdade, a Mentira, a Saudades, a Dor, a Fé, a Esperança. Ah, são tantos.
- Por que em preto e branco?
- Eles são apenas coadjuvantes. Você nunca procura pelo Tempo ou pela Esperança. Você apenas os usa para trilhar o caminho para a Felicidade e para o Amor.
- Como trilho o caminho com eles?
- Eles são abstratos, se lembra? Alguns, você terá que ignorar, deixar passar. Outros serão tua fonte de sabedoria para chegar lá.
- Sabedoria? Mas o amor não é irracional?
- O amor sim. O caminho até ele não. Sem sabedoria, você perderia-se na Loucura, na Tristeza e na Solidão bem antes de encontrá-lo.
- Quer dizer que tudo o que é de mal agrado só chega quando permitimos?
- Na verdade, não é uma questão de chegar. É uma questão de permiti-los, entende?
- Estou longe do meu objetivo?
- O objetivo não é distante. É intocável sem as armas certas.
- O que você escreve nesse bloco?
- O que eu sinto.
- Pra que?
- Pra saber o que tem faltado, quem tem entrado.
- E agora?
- Acho que você já sabe como prosseguir.
A menina foi embora, tudo o que era abstrato também. Logo depois, eu pude entender a essência da vida. Ela não é complicada, não conspira contra você, nem age de má fé. Ela é carregada de detalhes que podem levar-lhe a loucura. Contudo, o objetivo é tão simples que, com um fino traço, é capaz de decifrá-lo. Basta não se perder, não se entregar, não se deixar levar por pequenas bobagens e acumular aprendizados. Quer dizer, cair numa cilada duas vezes torna a vida complexa, acreditar no irreal e basear-se em futilidades também. Mas a vida é leve como um sopro. É translúcida como água limpa. E só não enxerga a verdade quem busca outras fontes impuras. O necessário é evidente e, chega a ser tão óbvio, que torna-se invisível.
Eu continuava caminhando. À passos lentos, tortos e incertos, devo confessar. Contudo jamais cogitei parar.
Avistei um banco vazio, cuja sombra projetada gerava uma figura humana. Aproximei-me. Era possível que eu estivesse enlouquecendo?
Uma doce voz sussurrou ao meu ouvido “Então você teve coragem de se aproximar?” Olhei para os lados, não vi ninguém. Quando olhei para o velho banco novamente, meus olhos fixaram-se na figura de uma menina. Ela carregava consigo um bloco de anotações. Vestia um leve vestido branco, usava um colar dourado e tinha um ar de mistério. Questionei-a:
- Não deveria?
- Poucos fazem isso.
- Mas, quem é você afinal?
- Seu reflexo.
- Ora, deixe de besteiras. Não é possível que eu encontre-me com palavras abstratas. Seria como falar com o amor. Fale a verdade.
- Olhe para os lados. Vê algo? - Ela ignorou minha fala e prosseguiu como se tentasse me provar algo.
- Não, não vejo nada. - Admiti. A paisagem seguia os mesmos padrões clichês de sempre. Nuvens negras encobriam o céu, o vento era forte e cheirava chuva. O banco era a única coisa concreta, ou talvez nem ele fosse real, que restava no alcance que meus olhos permitiam-me enxergar.
- Pois bem, isso é o que você tem sido.
- Esquece isso. Você bem deveria saber a confusão com a qual tenho deparado-me diariamente. - Eu esperava que ela tivesse sentido a ironia da minha voz e percebesse que eu ainda não havia acreditado em sua identidade.
- E o que você tem visto de toda a sua confusão?
De alguma forma, ela sabia o que estava acontecendo e suas palavras começaram a solidificar-se. Eu não via absolutamente nada em mim, era bagunça, vazio e incertezas.
- Escuta, tem como você me explicar alguma coisa? - Eu disse, seguido a um suspiro.
- Venha comigo, vou te mostrar.
Começamos a caminhar e nos distanciamos do banco. Não havia nada. Chão, chão e mais chão. Indignei-me: isso era meu interior?
Ao longe, avistei duas crianças brincando com bexigas coloridas. Elas corriam, riam e pareciam não se preocupar. A tal menina do vestido braco acenou a cabeça pra mim, como quem dava um sinal permitindo que eu me aproximasse. Neguei, recuei e insisti:
- Podemos continuar caminhando?
- Está com medo de se aproximar delas?
- Não.
- É difícil aproximar-se de algo que você julga ser seu passado, não é mesmo?
- Deixa de maluquice. São só duas crianças.
- Você era como elas.
- Era.
- Devia sentir saudades disso.
- Saudades não basta.
- Talvez você esteja certa.
- Claro que estou. - Afirmei convicta.
- Queria apenas que você se lembrasse que, algumas coisas, não podem ser tiradas do nosso passado.
- Não quero esquecer isso.
- Não é pra esquecer, nem reviver. É pra guardar o que foi aprendido. Gestos, histórias e promessas não são esquecidos, tampouco voltam. Mas mostram-nos coisas das quais deveríamos não nos esquecer.
Calei-me e continuamos andando. Talvez aquela estranha tivesse razão. De cada pouco que havia sido eu deveria manter um degrau. Não para retroceder, mas para elevar-me.
Alguém cutucou-me pelas costas. Virei-me e nada. Cutucou-me novamente. Não havia ninguém. A menina do vestido branco não declarou nada, sobretudo, notou minha inquietação.
Tropecei em algo que parecia ser uma pedra. Ao olhar para o chão, li que nela estava escrito: “Caminho para a sua felicidade”. Abaixei-a para pegar, sem sucesso. Um vulto roubou-a mais rápido.
Suspirei e desabafei:
- E então? O que veio a ser isso? Algo para mostrar-me que eu devo ser mais rápida?
- Não.
- O que, então?
- Explique-me o que aconteceu e conclua por si só.
- Eu tropecei no caminho para a minha felicidade.
- Sabe por que, não é?
Quieta, notei que, minha felicidade veio até mim. Como deve ser e como costuma ser. O vulto não fora mais rápido que eu, nem roubou algo de mim. Ele apenas levou-a para outra pessoa. E levou-a porque eu estava preocupada demais. Não apenas preocupada. Preocupada com coisas irrelevantes, que merecem ser ignoradas. Preocupada com o tipo de coisa que costuma roubar meu tempo e manter minha mente inalienada, sem levar-me a lugar nenhum.
Mais adiante, um pequeno grupo conversava. Perante a eles, pairava a nuvem mais negra do céu. Perguntei ao meu reflexo quem eram e ela respondeu: “A Inveja, o Medo e o Rancor”.
Irracionalmente, entrei entre eles e, com a voz trêmula, sussurrei:
- O que têm tramado pra mim?
- Não tramamos nada pra você. Fazemos isso com todos.
- Por que me afetam mais?
- Porque você nos permite entrar.
- Não permito.
- Ah, não? Tem deixado de fazer coisas, deixado pessoas pra trás, comparado-se injustamente, cedendo a derrota antes da hora. Torna-se frágil sozinha e apenas aproveitamos a brecha. Obviamente, você é maior que nós. Somos apenas abstratos, lembra-se? Contudo, quando você nos permite, fazemos.
O recado foi claro e direto. Mas eu sabia que precisava da ajuda de alguém para ir contra eles e já sabia o que me aguardava.
Uma carta caiu dos céus, trazida por uma pomba. Dizia ter sido escrita pela minha Força. Ao contrário do esperado, a mensagem foi curta: “Esqueces de mim quase sempre. Mas lembre-se que, quando você ergue a cabeça e sorri, tens a prova que não te deixo.”
Sentei-me no chão. Estava exausta. Meu reflexo sentou-se comigo. Na minha frente havia tanta gente, tanta coisa. Todos em preto e branco. O mais distante possível, as duas únicas pessoas com um tom de colorido conversavam. Antes de eu falar, a voz doce tornou a falar:
- Felicidade e o Amor. Quase sempre caminham juntos e torna-se no mínimo estranho quando se separam. Eles não estão distantes. Só estão além de tudo isso que você vê em preto e branco.
- E o que são essas coisas em preto e branco?
- O Tempo, a Verdade, a Mentira, a Saudades, a Dor, a Fé, a Esperança. Ah, são tantos.
- Por que em preto e branco?
- Eles são apenas coadjuvantes. Você nunca procura pelo Tempo ou pela Esperança. Você apenas os usa para trilhar o caminho para a Felicidade e para o Amor.
- Como trilho o caminho com eles?
- Eles são abstratos, se lembra? Alguns, você terá que ignorar, deixar passar. Outros serão tua fonte de sabedoria para chegar lá.
- Sabedoria? Mas o amor não é irracional?
- O amor sim. O caminho até ele não. Sem sabedoria, você perderia-se na Loucura, na Tristeza e na Solidão bem antes de encontrá-lo.
- Quer dizer que tudo o que é de mal agrado só chega quando permitimos?
- Na verdade, não é uma questão de chegar. É uma questão de permiti-los, entende?
- Estou longe do meu objetivo?
- O objetivo não é distante. É intocável sem as armas certas.
- O que você escreve nesse bloco?
- O que eu sinto.
- Pra que?
- Pra saber o que tem faltado, quem tem entrado.
- E agora?
- Acho que você já sabe como prosseguir.
A menina foi embora, tudo o que era abstrato também. Logo depois, eu pude entender a essência da vida. Ela não é complicada, não conspira contra você, nem age de má fé. Ela é carregada de detalhes que podem levar-lhe a loucura. Contudo, o objetivo é tão simples que, com um fino traço, é capaz de decifrá-lo. Basta não se perder, não se entregar, não se deixar levar por pequenas bobagens e acumular aprendizados. Quer dizer, cair numa cilada duas vezes torna a vida complexa, acreditar no irreal e basear-se em futilidades também. Mas a vida é leve como um sopro. É translúcida como água limpa. E só não enxerga a verdade quem busca outras fontes impuras. O necessário é evidente e, chega a ser tão óbvio, que torna-se invisível.

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